domingo, 21 de novembro de 2010

O SAMBA DO NICODEMUS

DIGAMOS QUE VOCÊ goste mais de azul que de cor de laranja. Ou que, dentre todas as verduras, nutra uma predileção especial pelo brócolis. Ou, ainda, que simpatize mais com o poodle do que com o weimaraner. Agora digamos que alguém decida isolar este tipo de característica e usar apenas essa única informação para defini-lo como ser humano.
De repente, em vez de ser, quem sabe, loiro ou moreno, carioca ou paulista, “baby boomer” ou membro da “Geração X”, extrovertido ou travado, torcedor do Bangu ou do Santos, colecionador de selos ou de fracassos sentimentais, enfim, em vez de ser tantas coisas ao mesmo tempo na sua infinita complexidade, imagine se você fosse apenas alguém que gosta de brócolis? ”Lá vai fulano”, diriam. “Ouvi dizer que gosta de brócolis”. Não seria um reducionismo perverso? Sujeito é um virtuoso do cello, o outro está trabalhando para desvendar o genoma humano e o pessoal interessado num único atributo: “O que será que ele faz com o brócolis entre quatro paredes?”
Ao longo da semana, a Universidade Mackenzie retirou de seu site, sob protestos, um manifesto contra o projeto de lei que pretende criminalizar a homofobia. Assinado pelo reverendo Augustus Nicodemus Gomes Lopes, o texto diz coisas assim: “As Escrituras Sagradas ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com propósitos heterossexuais específicos (…) A Igreja Presbiteriana do Brasil manifesta-se contra a aprovação da chamada lei da homofobia por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna. E por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem sobre o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.”
Será que pregar contra aqueles que gostam de brócolis é simples exercício da liberdade de expressão? E nascer gostando de brócolis seria “opção leguminosa?” O reverendo Nicodemus quer que a Igreja mantenha intacto o direito de criticar a homossexualidade. Entendo o ponto de vista, afinal, a condenação a uma minoria ajuda a manter o rebanho forte e unido. Mas, dá para fazer melhor. Olha só a ideia genial que eu acabo de ter: já que os gays cansaram de apanhar, deram para se organizar e conquistaram inclusive o poder de pressionar para ver criadas leis que os protejam na marra, sugiro que se passe a discriminar um novo grupo.
Alô, reverendo Nicodemus! Os judeus a gente descarta de cara. Crucificação e Hitler ainda estão muito frescos na memória, não é mesmo? Que tal partir para uma coisa mais dissimulada, que o povo encontre em todo lugar, mas que seja uma minoria mesmo assim? E como brócolis também é manjado e muita gente gosta, pensei nas pessoas que apreciam as alcaparras. Veja se o discurso encaixa: “A alcaparra em si é uma criação divina, mas desejar a alcaparra é ceder à tentação, é usar o corpo para propósitos outros do que aqueles que o Senhor entendeu para nós”. Não dá o maior samba, Nicodemus?

Barbara Gancia
Folha de S. Paulo, 19/11/2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Quero
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Tá falado!

"Os fundamentalismos contemporâneos em pouco diferem da inquisição católica. Acho absurdo forçar alguém a aceitar uma verdade inventada."
Isabel Allende

"As certezas andam sempre de mãos dadas com as fogueiras".
Rubem Alves

"Deus tem tão profunda reverência pela nossa liberdade que prefere deixar-nos livres para irmos pro Inferno do que nos obrigar a ir para o Céu".
Desmond Tutu

sábado, 17 de julho de 2010

“Os homens estão mais dispostos a pagar um prejuízo do que um benefício, pois a gratidão é um peso e a vingança é um prazer.
Tacitus

quinta-feira, 8 de julho de 2010


Cantar nunca foi só de alegria... Com tempo ruim, todo mundo também dá "bom dia!".

domingo, 4 de julho de 2010

Dr. House e o gnocchi

Seguindo as recomendações do Dr. House em episódio reexibido ontem, no UCTV, fiz um gnocchi levinho, com gosto de batata e até que fácil... Ainda ficou bonito!

Receita:
10 batatas ASSADAS
1 gema
1 colher de manteiga
sal
3 colheres sopa maisena
queijo parmesão picado miudinho

Depois de assadas as batatas, descascadas e transformadas em purê, acrescentei os demais ingredientes e a massa foi pro fogo até desgrudar do fundo da panela. Depois é só moldar e jogar na água fervente salgada por segundos, até que subam. Servi com molho de tomate e manjericão frescos.
Um fio de azeite...hum...

A dica do House, é que por não serem cozidas em água, as batatas liberam menos amido, portanto precisam de menos farinha, o que torna o gnocchi mais leve e saboroso. Ele é o cara ou não é?

sábado, 26 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

E a gente finge que é leitão pra poder mamar deitado...

Nada de novo. Só a mesma balada de todos os dias. Monocórdia. Sabe aquela música do Chico, que fala do Pedro que espera, espera? O trem, o aumento, o filho?
Às vezes tenho essa sensação de espera sem fim. Lá se vão cinco anos! Muita água rolou. Aprendi muita coisa, na porrada e no afago. Mas falta... Ô angústia que me tira o sono!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pequenas alegrias

Curioso como às vezes fugimos de um presente por conta de conceitos mínimos de primeira vista.
Em 2007, a vida me deu um desses presentes. Uma possibilidade. E eu nem percebi. Mas destino é destino, né não?
Pra você, amiga querida, irmãzinha de coração, posto o poema que é tão dele quanto seu. Não porque as palavras tenham relaçao com nosso passado, mas porque cada vez que ele for declamado, é na sua voz que vai chegar aos meus ouvidos.

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada"

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De luto


Morreu hoje, agora há pouco, o Saramago.

À parte de qualquer outra apresentação ou homenagem merecida, ele foi o cara que me fez acreditar na literatura contemporânea. E isso, pra mim, fez toda a diferença.

Cara, espero que você esteja errado e que a esta hora, tenha encontrado um deus em quem confiar.